26/05/2010
Fonte:Beatrice Gonçalves
Mulheres conquistam espaço no mundo empresarial
Geanete, da Incit: aumento de 70% na procura de mulheres pela incubadoraElas entraram no mercado de trabalho para mudar os negócios. Dados do IBGE mostram que em seis anos houve um crescimento de 19% na participação da mulher neste meio. Hoje elas já representam 45% da população ocupada das cinco regiões metropolitanas pesquisadas pelo instituto. As mulheres são também maioria quando o assunto é empreendedorismo. A Pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM 2008) mostra que em 2007 e 2008 as brasileiras abriram mais empresas do que os homens. Das 14,6 milhões de pessoas que realizam atividades empreendedoras no País, mais da metade – o equivalente a 52% – é mulher. Com a maior participação feminina, o Brasil conquistou espaço no cenário mundial e é considerado, segundo o estudo, o 13º país mais empreendedor do mundo.
A opção das mulheres por empreender está relacionada a um novo estilo de vida. Elas desejam independência financeira, horários de trabalho mais flexíveis e um modelo corporativo mais dinâmico. Para Marlene Ortega, conselheira do Business Professional Women (BPW) – associação que congrega mulheres de negócios em todo o mundo – e sócia-diretora do Universo Qualidade, empresa especializada em treinamentos, a mulher de hoje quer montar o seu próprio negócio e dar a ele o tom moldado por seus valores. “Acredito que as mulheres estão empreendendo melhor a própria vida, e quando entram no mercado de trabalho e se deparam com um ambiente corporativo masculino muito competitivo, elas deixam para trás a pressão para investir em negócios próprios.”
Para Marlene, as mulheres costumam mudar também a gestão dos negócios. Isso porque elas são mais flexíveis e preocupadas com o meio ambiente e as pessoas que estão ao seu redor. “Nós queremos qualidade de vida, saúde, queremos ser capazes de conciliar as coisas e não competir o tempo todo.” Ela explica que na hora de montar a própria empresa a mulher se preocupa mais em saber quais são as dificuldades e as facilidades que vai encontrar e, assim, é mais cautelosa e cooperativa. “Seu objetivo costuma ser sempre agregar valor social ao produto ou serviço que ela vende. Dessa forma, ela costuma pensar mais em gerar bens para outros, pensar na sociedade, nos filhos e em outras mulheres”, afirma.
O sonho de abrir a própria empresa também está associado ao aumento nos anos de estudo entre as mulheres. Dados do Inep coletados a partir do Censo da Educação Superior mostram que as mulheres aumentaram a sua participação nas universidades em 76%, de 2001 até 2007. De acordo com a pesquisa GEM 2007, 60% das empreendedoras brasileiras têm 11 anos ou mais de estudo, enquanto que o mesmo índice é de 52% entre os homens.
Mas o empreendedorismo feminino pode ser entendido também como uma opção para ter salários mais altos, já que no mercado de trabalho como funcionárias as mulheres costumam ganhar 30% menos que os homens, segundo Marlene. Pelos dados do Fórum Econômico Mundial de 2009, entre 136 países pesquisados o Brasil ocupa a 82ª posição no ranking global de desigualdade entre homens e mulheres. O relatório avaliou o nível de igualdade entre os sexos a partir da participação no mercado de trabalho, acesso à educação e à saúde e participação política. Se fosse levada apenas em consideração a desigualdade salarial, o Brasil teria ficado em uma posição menos favorável ainda e seria o 114º no ranking.
Jovens empreendedoras
Eunice, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres: Programa Nacional já capacitou 3 mil mulheresÀ medida que as mulheres estão empreendendo mais, estão procurando também tomar essa decisão cada vez mais cedo. Em 2008, entre os 42 países que participaram da pesquisa GEM, o Brasil ocupou o terceiro lugar entre aqueles que têm a maior participação de jovens em atividades empreendedoras, ficando atrás do Irã e da Jamaica. Bianca Alves é um exemplo de empreendedora jovem. Ela começou cedo. Aos 14 anos trabalhou em uma padaria, nos tempos livres passou roupas nas casas de professoras e ainda vendeu anúncios. Aos 24 anos, após se formar em publicidade, ela decidiu investir em um negócio próprio. A inspiração para criar a empresa surgiu ao refletir sobre a própria história de sua família.
Quando Bianca tinha três anos, o pai, que era pintor, sofreu um acidente de trabalho. Ele estava em um andaime e sem equipamentos de segurança, caiu e ficou tetraplégico. A imagem do sofrimento dele e de toda a família nunca saiu de sua cabeça. Em 2005 começou a pesquisar o caso do pai e percebeu que não havia no mercado um caderno de anúncios de equipamentos de proteção individuais com informações sobre as empresas que comercializam os produtos e orientações sobre os equipamentos mais indicados para cada atividade. Ela então desenvolveu o Guia do Equipamento de Proteção Individual (EPI), um portal na internet para divulgar fabricantes, revendedores, representantes de equipamentos de proteção e o transformou em uma referência para o setor. Em cinco anos de trabalho, mais de 1,5 mil empresas estão cadastradas e o site tem uma média de 5 mil visitas por dia.
“Pensei em um produto que pudesse melhorar a qualidade de vida no trabalho. Não pensei só em fazê-lo para ganhar dinheiro e ter a empresa, mas sim para ajudar, para que as pessoas tenham consciência e que mudem os hábitos de trabalho.” Para divulgar o produto, Bianca participou de feiras especializadas e visitou departamentos de segurança de trabalho. “Eu ia às escolas onde havia os cursos de técnico em segurança para divulgar o guia e, aos poucos, consegui aumentar o acesso ao site. Depois, com o aumento da demanda, precisei também disponibilizar o guia impresso. Hoje são mais de 30 mil exemplares distribuídos gratuitamente no País.”
Segundo Bianca, o desafio de abrir a própria empresa foi grande, mas com seriedade e comprometimento foi possível expandir o negócio. Ela conta que sofreu muito preconceito, porque 85% do mercado de segurança de trabalho é formado por trabalhadores homens. “Nesse ambiente é difícil encontrar uma mulher que seja técnica em segurança. Outro preconceito que se tem é que mulher não sabe negociar. Acho que a minha clareza nos negócios e o meu profissionalismo me ajudaram a entrar em muitos mercados e permanecer até hoje.”
A administradora Kátia Pinheiro Pereira também teve que se acostumar com um ambiente de trabalho em que os homens são maioria. Ela e o irmão montaram em 1985 a construtora Pinheiro Pereira, especializada na incorporação e construção de empreendimentos imobiliários na região leste do Estado do Rio de Janeiro. Kátia, que é diretora administrativa e financeira da construtora, deu um toque feminino à gestão da empresa familiar. “Acredito que a mulher tem mais sensibilidade e delicadeza na forma de ser e de tratar nos negócios.” Ela deixou o canteiro de obras sob a responsabilidade do irmão, mas o ajuda na compra dos terrenos, faz o cálculo dos empreendimentos, analisa a viabilidade do negócio, o preço do metro quadrado e qual é o mercado para o local. Além disso, ela é a pessoa responsável por projetos sociais desenvolvidos pela construtora como o de alfabetização de funcionários nas obras. “Nós temos muitos casos de empregados que não sabem ler e escrever e é muito gratificante poder proporcionar algum tipo de ajuda a eles.”
Quando visita as obras, Kátia conta que percebe um respeito muito grande, um certo cuidado e atenção especial, mas a presença de uma mulher na obra não chega a ser algo normal. Ela diz que nesse setor existe muito preconceito e que as mulheres costumam ser mais cobradas do que os homens. “Temos que ter ideias fundamentadas, para não se colocar de maneira inconsistente e sempre procurar saber o que se está falando.” Há 20 anos no ramo de construção civil, Kátia conta que o mercado está começando a mudar e tem percebido de uns cinco anos para cá que mais mulheres participam do setor. “Eu era a única representante feminina em associações de classe por uns 10 anos, mas isso mudou e hoje deve ter mais umas 15 mulheres associadas.”
Casada há 22 anos e mãe de dois filhos, ela diz que sempre se cobrou muito para dar conta da rotina do trabalho e da casa. “A exigência é muito grande porque a mulher tem que ser boa profissional, tem que ser boa mãe, ser bonita e ainda fazer ginástica.” Para dar conta, Kátia explica que os filhos acompanharam desde pequenos o trabalho na construtora e que essa aproximação os motivou a também entrar no ramo. Hoje o filho faz engenharia e a filha cursa arquitetura.
Áreas de atuação
Preferências femininas:
– 37% participam do comércio varejista com a venda de artigos
de vestuário e complementos
– 27% fazem investimentos na indústria de transformação na confecção e fabricação de produtos
– 14% investem em atividades de alojamento e alimentação
Fonte: GEM 2007
Mulheres em incubadoras e parques tecnológicos
– 48,6% das mulheres ocupam cargos de chefia
– 13% ocupam cargos administrativos
Fonte: Anprotec

